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Grupo VITA clama por transformação de mentalidade e sinaliza barreiras na desconstrução da perspectiva venerada dos clérigos

Quarto relatório destaca a «desigualdade de poder» e a «desvalorização das vítimas» como obstáculos contínuos, defendendo a permanência do trabalho
<p>Grupo VITA clama por «transformação de mentalidade» e sinaliza barreiras na desconstrução da «perspectiva venerada» dos clérigos</p>

Quarto relatório destaca a «desigualdade de poder» e a «desvalorização das vítimas» como obstáculos contínuos, defendendo a permanência do trabalho do organismo

Lisboa, 27 de janeiro de 2026 (Ecclesia) – O Grupo VITA alertou hoje sobre a persistência de “desafios estruturais” na prevenção de abusos dentro da Igreja Católica em Portugal, assinalando barreiras que ainda dificultam a denúncia e a proteção das vítimas.

“Ainda existem desequilíbrios significativos entre crianças e adultos, assim como nas estruturas eclesiais, onde a autoridade espiritual e hierárquica é muito valorizada”, menciona o quarto relatório de atividades do grupo, apresentado em conferência no Seminário de Alfragide (Amadora).

O documento sinaliza que a “visão sacralizada” dos sacerdotes contribui para o silêncio e a invisibilidade da violência.

Rute Agulhas, coordenadora do grupo, declarou aos repórteres que “houve uma colaboração plena” por parte dos bispos católicos, mas reconheceu que “existem objetivos que ainda não foram alcançados”.

“Estamos a falar de mudanças estruturais e muitas delas exigem tempo”, acrescentou.

A estrutura criada pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) reconhece que um “caminho positivo” e de “maior abertura” foi trilhado nos últimos dois anos e meio, mas enfatiza que a mudança cultural “ainda está em andamento”.

O Grupo VITA também identifica como barreiras a “desvalorização das vítimas”, frequentemente alvo de dúvidas ou minimização de seu sofrimento, e a “falta de estruturas uniformes” entre as dioceses, o que gera desigualdade nas respostas.

Entre as conclusões apresentadas, o relatório contesta a narrativa de que os abusos sexuais são um problema “resolvido” ou limitado ao passado, alertando que essa ideia gera uma “falsa sensação de segurança” que desmobiliza os esforços na prevenção.

O documento aponta ainda “mal-entendidos” que confundem a prevenção da violência sexual com “debates sobre sexualidade ou ideologia de gênero”, o que gera resistências sem fundamento dentro das instituições eclesiais.

Para o futuro, o Grupo VITA considera que a continuidade de seu trabalho é “essencial” para garantir a rigorosidade e a coerência das respostas, propondo um conjunto de medidas urgentes: implementação de códigos de conduta e canais de denúncia eficientes, criação de centros de escuta acessíveis, e a obrigatoriedade de formação em seminários e noviciados.

“A mudança de paradigma requer compromisso institucional e transformação cultural, colocando a proteção no centro da missão pastoral”, destaca o texto, que defende também a necessidade de “prestação de contas” pública e regular por parte das entidades da Igreja.

O organismo liderado por Rute Agulhas enfatiza a importância de clarificar o conceito de “adulto vulnerável” e a aposta em estratégias de justiça restaurativa, concluindo que apenas um “trabalho em rede sólido”, envolvendo bispos, Institutos Religiosos, Comissões Diocesanas e sociedade civil, permitirá consolidar ambientes realmente seguros.

“Num momento em que a Igreja busca reconstruir confiança e garantir ambientes verdadeiramente seguros, a continuidade do Grupo VITA não é apenas recomendável: é uma condição essencial para garantir coerência, rigor e compromisso efetivo com a proteção e prevenção”, afirmam os especialistas.

A 22 de maio de 2023, a Conferência Episcopal Portuguesa criou o Grupo VITA para acolher denúncias de abuso, trabalhar na prevenção e acompanhar vítimas e agressores.

Desde o início de suas atividades, o grupo recebeu 850 ligações e foi contatado por 154 vítimas e sobreviventes, além de um agressor do sexo masculino.

OC

Igreja/Abusos: Grupo VITA aponta a continuidade do trabalho de apoio às vítimas, com novos objetivos