
Por João Trindade, Líder de Tecnologia da Simplefy
Visualize um consumidor que solicita um financiamento para a habitação. Estamos bem familiarizados com o que acontece atualmente: coleta de autorizações, comunicações intermináveis pedindo documentos, cópias de baixa qualidade, certidões caducas, declarações ausentes, proof de rendimentos desatualizados. Dias desperdícios com idas e vindas, clientes insatisfeitos, processos paralisados à espera de “apenas mais um documento”.
Esse mesmo cliente consegue, instantaneamente e a partir do seu dispositivo móvel, compartilhar suas credenciais – identidade, rendimento, histórico financeiro – tudo verificado em segundos por fontes oficiais. Sem cópias, sem emails, sem espera. E a totalidade do processo de integração é concluída em poucos minutos.
Esta é uma realidade que já está contemplada na legislação europeia a partir de 2024, especificamente através do eIDAS 2.0 – um conjunto de normas e regulamentos da União Europeia que visa assegurar a segurança e o reconhecimento mútuo da identificação eletrónica e dos serviços de confiança em todos os Estados-Membros. Esta nova estrutura legal será obrigatoriamente adotada nos setores regulados a partir de dezembro de 2027. O seu elemento central são as Carteiras Digitais Europeias de Identidade (EUDI Wallet), um aplicativo digital que permitirá aos cidadãos da Europa armazenar e gerenciar de maneira segura os seus dados de identificação e credenciais (como Cartão de Cidadão, carta de condução ou diplomas) e compartilhá-los de forma controlada e eficiente. Para aqueles que atuam no setor de crédito, esta será a transformação mais significativa já enfrentada – e está mais próxima do que se imagina.
Com as carteiras EUDI, os clientes possuem e podem compartilhar de forma seletiva credenciais verificáveis emitidas por autoridades oficiais transnacionais – governos, instituições financeiras, entidades públicas da Europa. Processos de crédito que hoje podem demorar semanas podem se tornar quase instantâneos.
Novas oportunidades surgem: históricos de pagamentos de serviços, verificação de emprego em tempo real e comprovações criptográficas de saldos sem revelar valores específicos. Combinadas com inteligência artificial, essas credenciais irão auxiliar na criação de modelos de avaliação (scoring) mais inovadores, facilitando a decisão em relação à concessão de crédito.
Entretanto, a mudança é ainda mais profunda. O modelo nos aproxima da Identidade Auto-Soberana (SSI), um conceito em que o indivíduo detém controle e soberania total sobre a sua própria identidade digital, invertendo o controle da identidade digital. Os clientes passam a gerenciar os dados que desejam compartilhar e com quem podem compartilhá-los. As instituições não mais coletam cópias dispersas, mas sim verificam credenciais oficiais, armazenando apenas o mínimo necessário para cumprir com as exigências regulatórias. O processo de KYC (know your client), ou seja, a maneira como as instituições financeiras identificam e checam seus clientes para evitar crimes financeiros, se torna, em grande parte, reutilizável: as mesmas credenciais são válidas para diferentes instituições; as redundâncias e atritos no processo são reduzidos.
As credenciais verificadas oferecem provas de uma análise rigorosa mais robusta e auditável: tornam a falsificação exponencialmente mais difícil, diminuem drasticamente a fraude e favorecem a conformidade com o RGPD.
Não nos deixemos enganar, os desafios são reais: complexidade técnica, standards em evolução, incertezas em relação aos detalhes de implementação e riscos de exclusão digital. Porém, esperar até 2027 não é uma estratégia viável. Os players que começarem a integrar capacidades EUDI precocemente se diferenciarão através de experiências melhores e processos mais eficazes.
A questão não é se esta transformação irá ocorrer – os mandatos regulatórios garantem isso. A verdadeira questão é se estamos prontos para essa mudança. Mas essa discussão terá de ser abordada em um próximo artigo.
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