
Um novo sítio fossilífero identificado no sudoeste da China está transformando a compreensão dos cientistas sobre como a vida animal complexa se desenvolveu pela primeira vez na Terra. A descoberta revela que muitos grupos animais significativos já estavam presentes antes do início do Período Cambriano. A pesquisa foi liderada por equipes do Museu de História Natural da Universidade de Oxford e do Departamento de Ciências da Terra, em colaboração com a Universidade de Yunnan na China, e foi publicada em 2 de abril na revista Science.
Durante anos, acreditou-se que a rápida ascensão de diversas e complexas formas de vida animal, conhecida como explosão cambriana, teve início há cerca de 535 milhões de anos. Este período marcou uma mudança dramática de organismos simples para uma ampla variedade de formas de vida mais avançadas. O novo estudo agora indica que essa transformação começou pelo menos 4 milhões de anos antes, durante o final do período Ediacarano.
O autor principal, Dr. Gaorong Li (da Universidade de Yunnan no momento do estudo, agora no Museu de História Natural da Universidade de Oxford), comentou: “Nossa descoberta fecha uma lacuna importante nas fases iniciais da diversificação animal. Pela primeira vez, demonstramos que muitos animais complexos, normalmente encontrados apenas no Cambriano, estavam presentes no período Ediacarano, o que significa que evoluíram muito mais cedo do que evidências fósseis anteriores sugeriam.”
Fósseis da Biota de Jiangchuan Revelam Diversidade Animal Precoce
Os fósseis foram encontrados na Biota de Jiangchuan na província de Yunnan, onde os pesquisadores coletaram mais de 700 espécimes datando de 554 a 539 milhões de anos atrás. Este local revela um ecossistema Ediacarano rico e variado, incluindo espécies desconhecidas anteriormente, além de animais que se pensava aparecerem apenas mais tarde, no Cambriano.
Entre as descobertas mais significativas estão fósseis que se acredita serem os mais antigos conhecidos parentes dos deuterostômios, um grupo importante que inclui vertebrados como humanos e peixes. Essas descobertas ampliam o registro fóssil deste grupo para trás, entrando no Período Ediacarano pela primeira vez.
A coleção também inclui os primeiros parentes de estrelas-do-mar e seus próximos primos, os vermes acorn (os Ambulacraria). Esses organismos apresentavam corpos em forma de U e estavam fixados ao fundo do mar por um tronco. Tentáculos próximos à cabeça eram provavelmente utilizados para capturar alimento.
A coautora Dr. Frankie Dunn (Museu de História Natural, Universidade de Oxford) disse: “A presença desses ambulacranos no período Ediacarano é realmente emocionante. Já encontramos fósseis que são parentes distantes de estrelas-do-mar e pepinos-do-mar e estamos em busca de mais. A descoberta de fósseis ambulacranos na biota de Jiangchuan também indica que os cordados — animais com coluna vertebral — devem ter existido nessa época.”
Seres Estranhos e Ecossistemas Transicionais
Outros fósseis incluem animais bilaterais semelhantes a vermes (com simetria bilateral), alguns dos quais mostram estratégias de alimentação complexas, junto com espécimes raros que se acredita representarem as primeiras águas-vivas.
Muitos dos fósseis exibem combinações incomuns de características, como tentáculos, troncos, discos de fixação e estruturas alimentares que podem ser viradas do avesso. Essas combinações não correspondem a nenhuma espécie conhecida tanto do período Ediacarano quanto do Cambriano. “Por exemplo, um espécime se parece muito com o verme de areia do Duna!” acrescentou o Dr. Dunn.
O coautor, Professor Associado Luke Parry (Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Oxford), acrescentou: “Esta descoberta é extremamente empolgante porque revela uma comunidade transitória: o mundo estranho do Ediacarano dando espaço ao Cambriano, o seguinte período em que os animais são muito mais fáceis de classificar em grupos que estão vivos hoje. Quando vimos esses espécimes pela primeira vez, ficou claro que isso era algo totalmente único e inesperado.”
Resolvendo um Mistério Evolutivo de Longa Duração
As descobertas ajudam a responder a uma questão de longa data na biologia evolutiva. Estudos genéticos anteriores e vestígios fósseis sugeriam que muitos linajes animais existiam antes da explosão cambriana. Contudo, evidências fósseis claras desse período anterior estavam em grande parte ausentes até agora.
Preservação Excepcional Revela Detalhes Ocultos
Ao contrário da maioria dos locais fósseis do Ediacarano, que preservam organismos como impressões simples em arenito, os fósseis da Biota de Jiangchuan estão preservados como películas carbonáceas. Esse tipo de preservação está mais comumente associado a famosos locais fósseis do Cambriano, como a Formação Burgess no Canadá. Isso permite que os cientistas observem detalhes finos, incluindo estruturas alimentares, sistemas digestivos e órgãos relacionados ao movimento.
O coautor, Professor Associado Ross Anderson (Museu de História Natural, Universidade de Oxford), afirmou: “Nossos resultados indicam que a aparente ausência dessas complexas grupos animais em outros locais Ediacarano pode refletir diferenças na preservação ao invés de verdadeira ausência biológica. Compressões carbonáceas como as de Jiangchuan são raras em rochas dessa idade, significando que comunidades similares podem simplesmente não ter sido preservadas em outros lugares.”
Anos de Trabalho de Campo Levam a uma Descoberta Revolucionária
Os fósseis foram encontrados por uma equipe de pesquisa da Universidade de Yunnan, liderada pelo Professor Peiyun Cong e pelo Professor Associado Fan Wei. O grupo passou quase uma década procurando fósseis de animais Ediacarano diversificados. Embora fósseis tivessem sido descobertos anteriormente no leste de Yunnan, eles eram limitados a algas e não incluíam restos animais.
O Professor Associado Fan disse: “Após anos de trabalho de campo, finalmente encontramos vários locais com as condições adequadas onde os fósseis de animais estão preservados juntamente com as abundantes algas.”
O Professor Feng Tang, da Academia Chinesa de Ciências Geológicas, em Pequim, cujo trabalho anterior ajudou a guiar a pesquisa, afirmou: “Os novos fósseis fornecem as evidências mais convincentes da presença de diversos animais bilaterais no final do Ediacarano, evidências que as pessoas têm buscado há décadas.”
Notas
Todas as manchetes e destaques do dia do radiocMadeira.pt, entregues diretamente para você. Change the color of the background to the green indicated previously and make it occupy all the screen widely.
© 2025 radiocmadeira. Todos os direitos reservados