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A Reflexão Interna

Tânia Pires, Diocese de Bragança-Miranda Em tranquilidade. Sento-me, percebo meu corpo e respiro. Agradeço. Esse é o ritual diário fundamental.
<p>A Reflexão Interna</p>

Tânia Pires, Diocese de Bragança-Miranda

Em tranquilidade. Sento-me, percebo meu corpo e respiro. Agradeço. Esse é o ritual diário fundamental.

Existem muitas feridas expostas no mundo. Elas refletem as feridas que habitam em nós. Por isso, vejo que temos, de certa forma, uma responsabilidade por tudo que nos cerca, assim como a capacidade e o poder de efetuar transformações. Não se trata tanto de uma luta externa, mas de uma mudança interior que se manifesta externamente.

Para que a transformação venha de dentro, é preciso olhar para o interior. Somente após um profundo mergulho interno é que o coração pode se abrir de verdade ao outro, com compaixão e liberdade. A experiência é a mesma para os monges e monjas que vivem em clausura. Eles não estão presos em suas celas, mas vivem a partir da liberdade interna, de um centro que os mantém em comunhão com Deus, permitindo-se abrir ao mundo e compartilhar sua luz e paz com toda a Humanidade. Tenho um grande encantamento pela vida monástica, o que me levou a explorar diversos mosteiros e comunidades ao redor do mundo, formadas por pessoas que vivem em um tempo diferente, mais lento e apreciado, em uma rotina particular e em constante trabalho interior, para que possam cuidar de si mesmas e servir de faróis para o mundo ao redor.

Seja qual for a situação de vida ou profissão, é viável ter uma vida contemplativa no meio da agitação, das obrigações e dos inúmeros projetos diários? Posso afirmar que sim, contanto que essa seja uma intenção sincera que se adote como, mais do que um “estilo de vida”, a própria vida. Uma vida contemplativa na ação. Isso exige um rigoroso trabalho inicial, especialmente no nível interno, mas com o tempo, esse estado se consolida e se torna a norma.

Se em um lugar de silêncio absoluto um leve ruído pode se tornar perturbador e distrativo, quanto mais nesse mundo repleto de estímulos. É necessário um firme preparo para silenciar, acalmar, abrir o coração, enfrentar os medos, curar as feridas, tratar as emoções “de forma direta”, purificar preconceitos e acolher a presença de Deus no íntimo, repetindo incessantemente “aqui estou”. Isso caracteriza a busca pela autenticidade e pela verdade, e esse caminho é diário. Enfrentar os medos, cicatrizar feridas e integrar histórias, tanto interna como fisicamente, nem sempre é simples. Este processo de integração da vida ao corpo é crucial. O corpo guarda todas as memórias e detém uma sabedoria libertadora. É preciso dedicar muitos momentos ao silêncio, à observação do corpo e à conscientização. A respiração consciente, a meditação (ou oração centrante) e a contemplação são ferramentas essenciais nesse percurso.

Podemos ser contemplativos ao desfrutar de um copo de vinho com amigos, ao realizar um concerto, durante um jantar em família ou no ambiente de trabalho?

Antes de prosseguir, é importante esclarecer o que entendemos por contemplação. Aprecio a definição de Thomas Merton, que descreve a contemplação como a vida plenamente desperta, completamente ativa, totalmente ciente de sua vitalidade. É um arrebatamento espiritual. Um tremor espontâneo diante da sacralidade da vida e dos seres. Um agradecimento pela vida, pelo conhecimento e por tudo o que existe. É uma compreensão profunda de que, em nós, a vida e o ser emanam de uma Fonte invisível, transcendente e infinitamente criativa. A contemplação é, acima de tudo, a consciência da realidade dessa Fonte (Merton, 2020). Com base nessa definição, a meu ver impecável, ser contemplativo enquanto aprecio um copo de vinho com amigos é olhar para cada um deles com amor e gratidão por sua presença, tocando o sagrado que existe entre nós e percebendo a comunhão ao nosso redor, ciente de que Deus também está ali. É fazer uma oração no momento por aqueles que sinto que precisam, é saborear o vinho e agradecer, desde a terra, passando pela vinha, até as mãos que colheram as uvas e cuidaram das vinhas, ao meu paladar e ao meu corpo que acolhe. Sim, é possível ser contemplativo enquanto desfrutamos de vinho com amigos.

A gratidão também faz parte da contemplação e devemos agradecer por cada evento, cada ser, cada momento e cada pessoa que Deus coloca em nossas vidas, sem julgamentos.

Mesmo nos momentos mais desafiadores, podemos ser contemplativos, mesmo quando alguém nos perturba ou fere. Podemos observar a causa ou tentar entender se a pessoa está apenas projetando em nós algo que não consegue lidar ou compreender. Nesse caso, podemos olhar para essa pessoa com compaixão e reconhecer que ela está sofrendo, sem levar para o pessoal a sua ação ou comentário.

Escrevo tudo isso como se fosse simples e de resultado imediato, mas exige prática e disposição para alcançar esse estado. Somos feitos de carne, possuímos uma mente complexa, emoções intensas e situações que nos fazem vacilar; contudo, é necessário cultivá-los em nossos momentos diários. Porque ser contemplativo implica aceitar e observar nossa humanidade, nossas fraquezas e vulnerabilidades, nossos pensamentos menos agradáveis e palavras inadequadas, nossa fragilidade. Pois, ao contemplar tudo isso, começamos a compreender melhor quem somos, curamos e integramos, nos libertando da dor, do julgamento e da exigência, repousando na essência do que somos. Isso nos torna mais altruístas, empáticos e tolerantes com os outros. Deste modo, a atitude contemplativa nos guia a uma calma extraordinária. Tudo o que está presente pode permanecer. Não precisamos mudar nada. Aceitamos tudo como está. E não procuramos saber mais nem observamos: apenas contemplamos (Jalics, 2021). A partir disso, nasce a aceitação que resulta em paz interior.

O ato de caminhar pode ser uma ação contemplativa, mas o simples ato de parar também pode, permitindo-nos experimentar a beleza deste instante em que o corpo e o pensamento se aquietam; o querer e o desejo repousam e isso é shalom, uma palavra que não se limita a “paz”, mas que também significa integridade e plenitude (Leloup, 2014).

Não podemos ignorar que os monges são os contemplativos por excelência e, por isso, sinto que é cada vez mais relevante entender sua maneira de viver. Anselm Grün, em seu livro Ao ritmo do tempo dos monges, comunica de forma clara o que significa viver dentro de um mosteiro.

Um aspecto que considero essencial é a purificação do coração e a evitação de tudo que nos inquieta do exterior. Eu não possuo televisão e não assisto a telejornais. Compreendi que isso é uma caixa de informações limitadas, cuidadosamente selecionadas e manipuladas, que geram medo, preconceito e distorção da realidade. Mostra apenas uma fração da realidade; existe um mundo paralelo que geralmente não é revelado ou, se aparece, é por breves momentos. Mantenho meu interesse pelos acontecimentos do mundo, mas existem diversas maneiras de acessá-los. É extremamente distinto saber que uma guerra está ocorrendo ou ver, ao vivo, imagens de guerra que dia após dia nos tornam insensíveis à dor e ao sofrimento alheios. Não desejo me desligar e me tornar insensível e desumana, muito menos distrair-me. Prefiro o silêncio e, através dele, sentir o estado do mundo. Omraam Aivanhov nos aconselha que durante os silêncios, busquemos distanciar-nos das preocupações diárias e libertar os pensamentos, concentrando-nos em ideias e imagens divinas (Aivanhov, 2008).

Desta forma, conseguimos tocar o inferno e o céu na terra. Podemos optar por viver na escassez, no medo que fecha e bloqueia o coração, ou viver na alegria e na liberdade, que se abrem para o mundo e o próximo, vivendo em abundância. O discurso de que tudo só tende a piorar é comum, no entanto, é crucial manter a esperança e fazer nossa parte no cotidiano. Há, de fato, feridas abertas no mundo em transformação que causam inquietações e incertezas, mas é essencial observar os esforços que buscam construir, criar comunidade, gerar abundância, equilíbrio e trabalhar em prol da paz e do amor. Tendemos a sucumbir à tentação da dicotomia errônea do certo e do errado, do bom e do mau, essa eterna comparação entre opostos. Vejo essa dicotomia como cada vez menos ética e mais imatura. Já é tempo de abrir nosso entendimento e expandir nossa consciência. Dentro dessa perspectiva, deixo apenas esta pergunta: do que alimentamos nossas imagens, pensamentos, discursos e movimentos (internos e externos) diariamente? Tudo isso transforma o coração e a vida em si. É vital manter vigilância sobre esses aspectos para que não percamos a esperança e para tentarmos ser parte da solução, e não do problema.

Outro ponto crucial é a gestão entre viver mais externamente e viver mais internamente.

A minha família e meus amigos já estão cientes de que necessito de muito tempo de silêncio e solidão. Eles sabem que, por esse motivo, nem sempre estou com eles, pois preciso de momentos de recolhimento e retiro, mas também compreendem que necessito da presença deles e me conecto com eles de outra forma. Sair, participar de um jantar ou festa é agradável, mas saber parar e silenciar também é importante, deixando claro que hoje não poderei ir, mas estarei aqui se precisarem de mim.

Quanto mais aceitamos a vida contemplativa, mais acolhemos o silêncio, a contemplação, a natureza e a Criação, os períodos de oração e meditação, o Criador, e a consciência de nós mesmos e dos outros. Porém, as oportunidades de socializar e se divertir também têm relevância e nos fazem humanos.

A contemplação inaciana é outro tipo de prática interessante, uma forma de meditação imaginativa, recomendada por Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais e frequentemente usada por muitos santos. Envolve escolher uma cena da vida de Cristo e revivê-la, participando do que ocorre como se estivesse presente no momento (Mello, 1979).

Thomas Merton argumenta que a contemplação não pode ser ensinada, nem claramente explicada, e que quanto mais objetiva e cientificamente alguém tenta analisá-la, mais a desprega de seu conteúdo verdadeiro, porque essa experiência vai além do que se pode descrever ou explicar racionalmente.

Assim, cada pessoa é convidada a vivenciar e a buscar tudo o que a leva à contemplação. É como uma profunda peregrinação interna que se revela a cada passo dado em liberdade.

É urgente contemplar a natureza para lembrarmos de cuidar dela. Franz Jalics enfatiza que a natureza é o grande professor da contemplação e é por meio dela que iniciamos essa jornada. Permanecer longe do meio natural nos torna insensíveis e nos faz esquecer nossa própria essência, o que nos afasta da verdadeira realidade. Precisamos nos conectar com a natureza, contemplar as árvores, sentir a terra sob nossos pés e mãos, caminhar descalços e mergulhar em águas límpidas. É desse mundo que fazemos parte, é essa a nossa origem. Não somos feitos de concreto, mas de raízes profundas, troncos altos, riachos, cachoeiras, do sol, da lua, das estrelas e do céu. Quando lembramos disso, sorrimos.

É possível ser contemplativo mesmo na doença? A vida de muitos santos nos ensina que sim. Na minha experiência, posso relatar que meu corpo decidiu enfrentar uma condição muito complexa e ainda pouco compreendida, a endometriose. Essa enfermidade causa dor constante e intensa, afetando a vida em todos os aspectos. No entanto, também foi essa condição que, desde jovem, me ensinou a apreciar o limite da existência, a fragilidade humana e a importância de valorizar cada segundo do meu tempo. Foi também essa doença que, em momentos de grande dor, me fez conectar com a ferida aberta e o sofrimento de todas as pessoas no mundo, aprendendo a não sofrer em vão. Aprendi a valorizar a agricultura, a natureza e os alimentos naturais, percebendo a cura que eles proporcionam, além de conhecer as plantas medicinais pelo nome e reconhecer seus efeitos no meu corpo. Cada momento sem dor é uma contemplação do alívio, da alegria, da energia física e mental, da Primavera, do Sol e do calor. Aprendi que, mesmo na dor, a felicidade pode ser uma constante e que tudo pode ser feito, ainda que com sacrifício e mais valor. Aprendi que nem sempre as pessoas entendem nossas batalhas e que não precisamos de validação externa para vivermos de forma harmoniosa e verdadeira. Aprendi a respeitar o sagrado que há em mim e no outro, a ser tolerante e empática. Isso me ajudou a enxergar o mundo através da luz do amor e da compaixão. Me fez retornar ao meu corpo, valorizando e conhecendo-o em cada detalhe e comunicando com ele de maneira sábia. Ensina-me a entender que existem limites que devo respeitar e a me fazer respeitar. A endometriose me levou a lugares sombrios, mas também me direcionou à luz. Posso agradecê-la.

Nesse contexto, é importante abordar a oração pelo próximo e o pedido de oração. Pedir a um amigo que reze por nós é abrir o coração ao amor divino e à comunhão. Recentemente, passei por uma grande cirurgia em função da endometriose e, tendo vários amigos padres e católicos, além de pessoas de outras crenças, pedi que, ao seu modo, rezassem por mim no momento da cirurgia. Antes de ser anestesiada, conectei meu coração a todas essas intenções e orações. Foi uma experiência muito especial adormecer nesse estado, contemplativa e em união, numa êxtase pacífica e luminosa, indescritível. Limitamos muitas vezes nossa fé a estruturas, esquemas e protocolos, mas só uma coisa é absolutamente necessária: estar próximo, presente e em comunhão com essa humanidade verdadeira, que não está distante, em um altar adornado, mas nos simples pés da própria vida, que se desenrola e que simboliza a força do nosso caminhar em amor e verdade, cuidando do outro e permitindo que sejamos cuidados. É nessa reciprocidade do cuidar que também vamos tecendo humanidade.

É fácil crescer em uma sociedade que toma decisões por nós e nos facilita o caminho a seguir. É simples crescer sabendo que se vai estudar, se formar, ter uma carreira, constituir uma família e ter filhos que repetirão esse padrão, netos e assim por diante. Eu, sem saber e sem querer, fui me afastando e explorando diversas formas, muitas vezes sem rótulos e com múltiplas facetas, difíceis de definir. Passei muito tempo vivendo dentro da mente e da emoção, tentando resolver esses conflitos internos e as experiências que surgiam através de todos os meus sentidos, por estar ciente da incompatibilidade desse esquema mais convencional com o tipo de vida que reconhecia como o melhor para mim. Mas fui me descobrindo. Gosto de arriscar, de saltar, de explorar as sombras e a luz, de me reinventar, de sentir a vida no corpo e, com isso, tenho vivenciado várias vidas para realmente me conhecer e me abrir ao outro. Levo a vida a sério quando se trata de movimentos internos e do desenvolvimento da humanidade. Aspiro a me libertar do espaço e do tempo que aprisionam, ampliando a percepção sobre tempo e espaço, sobre o qual a arte, a música, a contemplação, a oração, o corpo e o movimento me permitem existir. Para isso, decidi criar um novo caminho, um modo de vida que creio corresponder à vontade de Deus para mim. Uma existência inspirada no ritmo e na essência da vida monástica que mergulha nas profundezas da arte e da contemplação.

O Atelier Sabbath é resultado dessa busca e uma expressão física dela. Um espaço artístico na cidade de Bragança, que busca ser um local de paz e silêncio, cercado por natureza, onde me dedico, em oração e contemplação, à criação de Ícones (Iconografia Bizantina), à agricultura sintrópica, à performance art e à música contemplativa desde 2011. Ainda criei a Bienal de Artes Contemplativas, que teve sua primeira edição em 2024, com o intuito de unir e criar comunidade com outros artistas que, assim como eu, buscam trabalhar em prol da paz interior e da humanização.

Sobre o tema da contemplação, muito ainda pode ser explorado, desde a ascese e o hesicasmo, com o exemplo dos pais e mães do deserto, até as profundezas da história mais crua – mas isso será para outra ocasião!

Por ora, respiro de forma consciente.

Sinto meu corpo e contemplo as árvores com um olhar renovado, sem me prender à forma ou definição. Contemplo os pássaros e a leveza de seu voo. Permito-me sentir o calor do sol sobre o meu rosto. Sorrio e agradeço ao Sagrado do qual fazemos parte e rezo por um mundo mais contemplativo em cada vida real e concreta.

Abraços.

Tânia Pires, iconógrafa (https://www.facebook.com/ateliersabbath)

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AIVANHOV, Omraam (2008). A via do silêncio. Publicações Maitrey.

JALICS, Franz (2021). Ejercicios de contemplación. Ediciones Sígueme.

LELOUP, Jean-Yes (2014). O Sentar e o Caminhar. Editora Vozes.

MELLO, Anthony (1979). Sadhana. Un camino de oración. Editorial Sal Terrae.

MERTON, Thomas (2020). Novas sementes de contemplação. Editorial Franciscana.

(Os artigos de opinião publicados na seção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são de responsabilidade de seus autores e não refletem obrigatoriamente a visão do portal.)

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