No mês de outubro de 2024, a DECO PROteste trouxe à tona a falta de clareza das marcas sobre o que ocorre quando a garantia da bateria expira e quanto custam os reparos. Retorna com uma análise de custos e do impacto ambiental para responder a duas questões: qual tecnologia é mais dispendiosa? E qual é a que causa mais poluição?
Para dissipar qualquer incerteza, foi necessário avaliar a sustentabilidade econômica e ecológica ao longo de todo o ciclo de vida dos veículos elétricos e híbridos, comparando esses dados com os de automóveis de combustão. Na análise de custos, o carro elétrico (sem considerar a troca de bateria) já demonstra competitividade em relação ao automóvel a combustão. A conclusão se mantém em cenários de 200 mil e 400 mil quilômetros. Entretanto, se ocorrer a infelicidade de precisar substituir a bateria, sua viabilidade financeira diminui, considerando os custos atuais.
Ao comparar as emissões poluentes, os veículos elétricos saem vitoriosos, apresentando menores emissões equivalentes em ambos os cenários e em todos os segmentos. A única desvantagem está relacionada ao impacto ambiental da extração de recursos minerais, devido aos materiais que compõem a bateria.
O carro elétrico possui um custo inicial mais alto, mas pode compensar ao longo da utilização
O preço de compra dos veículos elétricos ainda é superior ao dos movidos a combustão, mas o custo total durante a vida útil do veículo já se torna comparável, “se” a bateria não precisar ser substituída. Espera-se uma redução no custo de aquisição e um aumento na durabilidade da bateria (ou a diminuição dos preços de substituição). Os modelos totalmente elétricos também estão isentos do Imposto Sobre Veículos (ISV) e do Imposto Único de Circulação (IUC). Não há indicações de que essa isenção será finalizada em 2026. Em diversos municípios, o estacionamento é mais acessível ou até gratuito para carros elétricos. Entretanto, em algumas áreas, pode ser necessário exibir um adesivo para usufruir desse benefício.
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Os veículos elétricos demonstram vantagens significativas em termos de emissões de CO2 equivalente em todas as categorias de impacto ambiental, exceto na extração de matérias-primas. Essa fragilidade é atenuada por soluções de reciclagem de baterias na Europa, que diminuirão a necessidade de extração de novos materiais para a fabricação de baterias.
Estudo do ciclo de vida
O ciclo de vida de um automóvel é dividido em quatro etapas: extração de recursos, fabricação do veículo, uso e descarte. A análise também considera o ciclo de produção, transporte e conversão de combustível (energia).
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A expressão aplicada internacionalmente sintetiza a ciência: LCA Cradle-to-Grave avalia os impactos ambientais desde a extração dos recursos até o descarte. Para as fontes de energia (combustível e eletricidade), pode-se considerar o ciclo completo Well-to-Wheel, que abrange desde a exploração de recursos até o uso. Este se divide em duas etapas: Well-to-Tank, que abrange desde a extração até o sistema de armazenamento do veículo (tanque de combustível ou bateria elétrica), e Tank-to-Wheel, que refere-se ao uso do combustível/eletricidade pelo veículo, ou seja, desde o armazenamento até a roda.
Ao longo da vida útil, os automóveis requerem diversas intervenções: óleos lubrificantes, pneus, pastilhas de freio e baterias. Esta análise identificou todas as necessidades do veículo que influenciam o desempenho econômico e ambiental.
Custo real para 200 mil e 400 mil quilômetros
Para entender como os veículos elétricos se posicionam, foram pesquisados os estudos mais atuais. Considerou-se a troca da bateria no contexto europeu, assim como os custos para cada tipo de veículo, incluindo manutenção preventiva, manutenção corretiva, equipamentos, combustível, consumíveis, pneus e impostos. Aplicada ao contexto português, a análise levou em conta o custo por quilômetro e o preço médio de aquisição de cada tipo de veículo da base de dados nacional. Foram apurados os custos atuais médios de cada tipo de energia para cada um dos segmentos, com os custos de uma nova bateria para os elétricos (que representa 34% do valor do veículo novo).
Em Portugal, a média de idade dos automóveis entregues à Valorcar, a entidade responsável pela gestão de veículos ao fim de vida, foi, em 2023, de 24 anos, com um histórico de quilometragem bem acima dos 200 mil quilômetros. Assim, a análise considerou dois pontos de vista: ciclo de vida normal e ciclo de vida estendido. A primeira parte assume que os veículos “expiram” após 200 mil km (em média, 13 anos). A segunda perspectiva considera que os carros duram até 400 mil km, que é a quilometragem média em Portugal, ou cerca de 25 anos.
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Os gráficos apresentam os resultados tanto em um cenário ideal com o carro elétrico, quanto quando é necessário trocar a bateria ao fim da garantia padrão. Este representa o pior cenário: a bateria falha assim que a garantia se encerra, e o consumidor arca com as despesas da substituição.
Os carros elétricos se tornam muito mais competitivos se ultrapassarem 400 mil quilômetros. E, se o preço de venda for reduzido em 10% (através de subsídios e incentivos do governo ou devido à concorrência), eles se tornam, em geral, a solução mais econômica. Na perspectiva do ciclo de vida normal, os veículos a diesel são considerados mais viáveis. Entretanto, no ciclo de vida estendido, a viabilidade econômica do elétrico está garantida, desde que a bateria não precise ser trocada, sendo até mais vantajoso do que o automóvel convencional.
Análise abrangente do impacto ambiental
Mediram-se os impactos ambientais em cada fase e ao longo do ciclo de vida total, para os diferentes tipos de veículos. Na extração e fabricação de matérias-primas, a principal diferença nos elétricos refere-se às baterias, componentes eletrônicos e motores, que exigem maior quantidade de cobre (até quatro vezes mais), alumínio e materiais críticos. O peso de uma bateria varia entre 177 e 553 kg, resultando em um peso total típico do veículo entre 1100 e 2100 quilos.
Para aumentar a autonomia, os fabricantes adicionam células aos módulos, aumentando o peso e o volume das baterias e dos veículos. Paralelamente, para manter alta autonomia e peso reduzido, utilizam materiais leves, como alumínio e compósitos de carbono ou plásticos, resultando em um elevado consumo de energia global.
Na fabricação dos automóveis (e das baterias), os elétricos se diferenciam especialmente nos componentes de armazenamento de energia, propulsão e frenagem. Alguns modelos são adaptados a partir de carrocerias de combustão, visando a redução de custos.
Estudo até a última emissão poluente
A bateria é um fator crucial, especialmente quanto ao local de produção e composição química. A fabricação da bateria representa entre 33% a 44% das emissões equivalentes durante a produção de um veículo elétrico, podendo chegar a 75%, enquanto o motor elétrico gera entre 7% a 8% dessas emissões. Há vários tipos de baterias de íon de lítio, sendo os três mais comuns em veículos de passageiros os LFP (fosfato de ferro-lítio), NMC (níquel-manganês-cobalto) e NCA (óxidos de lítio-níquel-cobalto-alumínio).
Embora os elétricos não possuam tubo de escape, durante seu uso, geram emissões indiretas originadas pela produção da eletricidade consumida na propulsão. Pesquisas recentes indicam que os veículos a combustão de porte médio emitem 143 gramas de CO2 equivalente por quilômetro, enquanto os elétricos variam entre 60 e 76. Além disso, os carros elétricos convertem entre 70% a 90% da energia em movimento, enquanto os motores a combustão atingem apenas 40% dessa eficiência.
O Parlamento Europeu afirma que a troca de bateria não será necessária para um ciclo de 225 mil quilômetros. Especialistas sugerem que a garantia de oito anos é uma visão conservadora dos fabricantes, que não representa a verdadeira expectativa de vida.
Por fim, em 2023, de acordo com a Valorcar, 90% do peso total dos veículos foi reciclado/reutilizado e 94% valorizado, evidenciando os veículos de combustão como uma tecnologia madura e pronta para o desmantelamento. As baterias dos elétricos possuem componentes recicláveis, mas suas taxas de reciclagem ainda não são tão elevadas.
Aquecimento global em foco
Quando comparados com outros países, os resultados em Portugal são ainda mais favoráveis para os veículos elétricos, devido à nossa maior proporção de energia renovável em relação à média europeia. Independentemente do tamanho, se os veículos atingirem o fim de vida aos 200 mil ou 400 mil quilômetros, a hierarquia se mantém a mesma.
Nos carros a combustão, a etapa crítica é o uso, com a queima de combustível. O desempenho dos híbridos plug-in depende das práticas de condução e carregamento. Nos elétricos, a fase responsável pela maior parte das emissões é a produção, se o descarte ocorrer aos 200 mil km, e a utilização, caso atinja 400 mil quilômetros. Observou-se, ainda, que a fase de produção dos carros elétricos é superior à dos modelos a combustão em todas as situações.
Consumo sustentável de automóveis
Os fabricantes de veículos e as marcas precisam continuar a investir em novas tecnologias para aprimorar a densidade energética das baterias, com duas metas principais: reduzir seu peso, consumindo menos materiais, e aumentar a autonomia. Esse esforço deverá refletir em uma redução de preços para o consumidor, um fator essencial para a competitividade dos veículos.
O Governo e os órgãos reguladores do setor têm um papel fundamental a desempenhar. Eles devem prosseguir com o investimento em incentivos e benefícios que tornem os veículos de mobilidade elétrica mais acessíveis, promovendo a aquisição por pessoas físicas; incentivando a adoção para frotas empresariais e considerando outros meios de locomoção individual (como bicicletas), além de oferecer descontos ou isenções nas tarifas de estacionamento em determinadas áreas.
Ademais, o Governo deve continuar a investir na expansão da rede pública de carregamento. Embora já haja um número considerável e distribuído de pontos por todo o país, o consumidor ainda gasta muito mais tempo para carregar um veículo elétrico do que para abastecer um carro convencional. A infraestrutura deve atender à demanda em termos de quantidade de postos e de potência. Além disso, é essencial investir em soluções de reaproveitamento, reciclagem e valorização doméstica, para recuperar os materiais críticos das baterias e manter o fluxo de matérias-primas dentro de Portugal e da Europa.
Os consumidores devem considerar os incentivos oferecidos pelo Governo ao adquirirem um carro elétrico. Ademais, é importante lembrar três aspectos para aumentar a viabilidade econômica dessa decisão. É mais vantajoso adquirir um carro elétrico se houver possibilidade de carregá-lo em casa ou em wallbox. A acessibilidade a pontos de carregamento nas áreas residenciais e de trabalho precisa ser assegurada. E é importante escolher o segmento do veículo conforme as necessidades reais de mobilidade. O comparador da DECO PROteste pode ser um grande aliado.
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