
Uma nova pesquisa realizada pela Universidade de Southampton e pela Universidade de East Anglia (UEA) indica uma mudança significativa nas condições climáticas do Pacífico Sul, iniciada há cerca de 1.000 anos, que pode ter incentivado as pessoas a migrar e se estabelecer mais a leste. O estudo sugere que, à medida que partes da região ocidental se tornaram progressivamente mais secas, as comunidades puderam ser levadas a buscar ilhas com chuvas mais consistentes.
A equipe relata que as ilhas habitadas na Polinésia Ocidental, como Samoa e Tonga, passaram por um processo de secagem ao longo do tempo. Em contrapartida, ilhas mais a leste na Polinésia Oriental, como a Polinésia Francesa (Tahiti), gradualmente se tornaram mais úmidas, tornando-se locais potencialmente mais atraentes para viver e cultivar.
Esse trabalho faz parte de uma colaboração mais ampla entre Southampton e UEA conhecida como PROMS (Chuva do Pacífico em Escalas Milenares), que investiga como a precipitação no Pacífico mudou ao longo de longos períodos e como essas mudanças podem ter influenciado a migração humana.
Os resultados foram publicados na revista Nature: Comunicações Terra e Ambiente.
Implicações do PROMS e a ideia de “seguir a chuva”
O Pesquisador Principal do PROMS, Professor David Sear, comenta: “As Ilhas do Pacífico atualmente enfrentam ameaças devido ao clima em mudança, mas nossa pesquisa mostra que esta não é a primeira vez que os habitantes da região tiveram que se adaptar a um clima alterado.
“Nosso estudo sugere que, a partir de cerca de 1.000 anos atrás, as pessoas na região estavam, na verdade, seguindo a chuva em direção a leste, como parte de sua adaptação ao estresse imposto pelo crescimento populacional em um período de condições mais secas no Pacífico Sul ocidental.”
Indícios de cera vegetal e 1.500 anos de história de precipitação
Para reconstruir a precipitação do passado, os pesquisadores coletaram núcleos de sedimentos em Tahiti e Nuku Hiva na Polinésia Oriental e analisaram ceras vegetais — camadas gordurosas deixadas nas folhas. Testes laboratoriais avançados dessas ceras podem indicar quão úmidas ou secas eram as condições na época em que as plantas cresceram. A equipe então combinou esses novos resultados com outros registros climáticos de toda a Polinésia e do Pacífico em geral.
Utilizando esse conjunto de dados de alta resolução, os pesquisadores estimaram como os padrões de precipitação ao longo do Pacífico mudaram nos últimos 1.500 anos. Eles também empregaram novas simulações de modelos climáticos para identificar quando e onde ocorreu a mudança na precipitação e para determinar o provável motivo por trás disso.
A equipe conclui que a causa mais provável foi uma mudança natural nos padrões de temperatura da superfície do mar no Pacífico, que parece ter deslocado a Zona de Convergência do Pacífico Sul (SPCZ) para leste entre aproximadamente 1.100 e 400 anos atrás. A SPCZ é uma das maiores estruturas do sistema climático global, formando uma zona de alta precipitação que se estende por mais de 7.000 km, da Papua Nova Guiné até além das Ilhas Cook. Na mudança identificada por este estudo, a extremidade ocidental dessa faixa de precipitação tornou-se cada vez mais seca, enquanto a extremidade oriental ficou mais úmida.
Pressão e atração migratória à medida que a água potável mudava
Os pesquisadores afirmam que o longo período de secagem no oeste poderia ter agido como um “empurrão”, dificultando a vida onde as populações já estavam estabelecidas. Ao mesmo tempo, o aumento da precipitação e a melhor disponibilidade de água potável no leste poderiam ter criado uma “atração” para o estabelecimento em novas ilhas. O estudo sugere que esse padrão climático pode ter incentivado as pessoas a viajar passo a passo para leste, incluindo para ilhas como os Cook e Tahiti.
O coautor principal do artigo, Dr. Mark Peaple da Universidade de Southampton, afirma: “O tempo e a natureza da mudança hidrolimática se alinham com a onda final de assentamento humano na Polinésia Oriental, que começou há cerca de 1.000 anos.
“A água é essencial para a sobrevivência das pessoas, para beber e para a agricultura bem-sucedida. Se esse recurso natural vital estava escasso, é lógico que ao longo do tempo a população seguiria seu rumo e colonizaria áreas com uma segurança hídrica mais confiável — mesmo que isso implicasse em jornadas ousadas pelo oceano.”
O coautor da UEA, Dr. Daniel Skinner, acrescenta: “Reunir conhecimentos de arquivos paleoclimáticos e modelos climáticos nos proporcionou informações valiosas sobre como e por que uma região criticamente pouco estudada do mundo mudou nos últimos 1.500 anos.”
O Co-Pesquisador Principal, Professor Manoj Joshi, também da UEA, diz: “Ao entender melhor como o clima do Pacífico Sul foi afetado por mudanças climáticas em maior escala ao longo dos milênios, podemos fazer previsões mais precisas sobre como as mudanças climáticas futuras impactarão a região.”
Próximos passos e apoio ao trabalho de campo
Os pesquisadores afirmam que estudos adicionais, incluindo mais trabalho arqueológico, poderiam ajudar a delimitar o tempo e a escala tanto das mudanças ambientais quanto das mudanças sociais no Pacífico Sul.
O trabalho de campo foi apoiado por subsídios Explorer da National Geographic Society.
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